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Rua Gregório Júnior, 264, Cordeiro, Recife, Pernambuco, Fone: 81-3228.7052
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| Rinaldo Ferraz |
"Só trazia a coragem e a cara, viajando num pau-de-arara. Demorei, mas aqui cheguei". A música Pau-de-arara, imortalizada pela composição de Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, retrata com maestria e sensibilidade a condição dos retirantes sertanejos e a luta pela sobrevivência e conquista de um lugar ao sol das grandes metrópoles. Com Rinaldo Ferraz não foi diferente. Nascido em Floresta (PE), há 39 anos, mudou-se logo para Tacaratu (PE) onde passou a infância e pré-adolescência. Lá, iniciou os estudos e teve os primeiros contatos com os ritmos mais autênticos do sertão nordestino do Brasil.
"Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu bodocó (no caso de Rinaldo, o sertão do Moxotó), meu malote era um saco e o cadeado era o nó". Aos 14 anos aportou na capital pernambucana para estudar o 2o. grau no Colégio Radier, a fim de se preparar para o vestibular, com a incerteza do que a vida lhe reservava para o futuro. Alegre e festivo, embora muito sério e profissional em tudo o que faz, Rinaldo absorveu muito da cultura sertaneja colecionada pelo seu irmão Rilton Ferraz (in memorian). Rilton tinha uma verdadeira discoteca de LPs e CDs nordestinos, da cantoria ao xote, passando por todos os ritmos dos estados do Maranhão à Bahia. Em Tacaratu, Rilton Ferraz era uma espécie de adido cultural (hoje tem um busto na cidade e um centro cultural em sua homenagem).
Depois da morte de Rilton, Rinaldo Ferraz herdou o acervo de forró e outros ritmos que eram patrimônio do irmão – um entusiasta do pé-de-serra. Sensível, Rinaldo abriu em 1999 o bar Bomba Chiando, um embrião do Sala de Reboco. Reformou o sobrado do bairro do Cordeiro e criou o espaço com palco e salão. Decorou a casa com paisagens e motivos que "remetem os freqüentadores às festas dos vales sertanejos, parecidas com as do tempo em que não havia energia elétrica e a bebida ainda era colocada para gelar dentro de um pote de água fria". Conseguiu, assim, fazer um verdadeiro oásis para os sertanejos e adeptos. Formou-se em engenharia eletrônica há 17 anos, depois de ser diplomado em técnico em Telecomunicações pela antiga Escola Técnica Federal de Pernambuco (ETFPE), hoje Cefet. Atualmente está no oitavo período de Direito e não falta a nenhuma aula. A não ser no primeiro semestre deste 2008, quando perdeu apenas duas aulas porque foi para Campina Grande levar o projeto Sala de Reboco Itinerante. Com a coragem e a cara, pagou sete cadeiras na primeira parte deste ano, com cinco notas 10, um 9,5 e um 9,6. Tudo isso porque "o sertanejo é, antes de tudo, um forte", como disse Euclides da Cunha.
Com muito trabalho, Rinaldo pode dizer: "eu penei, mas aqui cheguei". Hoje ajuda aos músicos (cantores e compositores) gerando empregos e pagando cachês adiantados para os que precisam de dinheiro para sobreviver na entressafra do forró, que acontece de agosto a abril de cada ano. Dá oportunidade de renda para os artistas manterem seus trabalhos remunerados, por exemplo, no mês do Carnaval. De Tacaratu e Floresta, "trouxe o triângulo, trouxe o gonguê, trouxe o zabumba dentro do matulê. Xote, maracatu e baião: tudo isso trouxe no seu matulão". E decidiu dividir com mais de três mil pessoas por semana e uma média de 25 artistas por mês. Todos gratos pela oportunidade que tiveram, como disse Santana – O Cantador, desconhecido até 1999, em um programa de rádio: "o Sala de Reboco abriu as portas do Recife para mim". Abriu também para outros como Chico Balla e Joseildo Sá; consolidou nomes como Maciel Melo e Petrúcio Amorim.
E tudo isso transformou este retirante sertanejo, que antes era apenas mais um fã, em "pai dos forrozeiros", como é tratado pela maioria dos músicos deste ritmo. Mas não esquece a voz de Gonzagão cantando Gonzaguinha: "Começaria tudo outra vez, se preciso fosse meu amor. A chama no meu peito ainda queima. Saiba, nada foi em vão. A cuba-libre da coragem em minha mão; A dama de lilás me machucando o coração; a febre de sentir seu corpo inteiro coladinho ao meu. E então eu cantaria a noite inteira, como eu já cantei e cantarei. As coisas todas que já tive, tenho e sei que um dia terei. A fé no que virá e a alegria de poder olhar pra trás e ver que voltaria com você, de novo a viver, nesse imenso salão (de Reboco), ao som desse bolero (baião), a vida, vamos nós e não estamos sós. Veja meu bem: a orquestra (o Quinteto) nos espera. Por favor, mais uma vez, recomeçar". Rinaldo, parabéns para você que também é pai dos poetas.
Cristiano Jerônimo é jornalista e escritor (UBE-PE).